Existem poucas “certezas absolutas” na vida em geral. A principal e mais importante é: o tempo não volta, o tempo não para.
Mas o que é “tempo”? É o elemento de medição mais complexo criado pela inteligência humana, pilar das ciências físicas e da matemática. Também é parte do dia a dia: “estou lutando contra o tempo”, “não tenho tempo para nada”, “estou sem tempo”, e por aí vai.
O tempo foi cientificamente fracionado e, para o cotidiano das pessoas e empresas, fico com apenas duas dimensões: ano e hora. Ambos derivados da Astronomia. Assim, vivemos organizados na contagem dessas variáveis.
Diz a lenda, ou o ditado: “o tempo é o senhor da razão”. Será mesmo? A frase, muitas vezes atribuída a Marcel Proust, autor do clássico Em busca do tempo perdido, é de fato intrigante.
Vejamos o ano 2050.
A partir da decisão da Igreja Católica, o Papa Gregório XIII definiu o calendário e a contagem do tempo como conhecemos hoje. Como, na época, a ciência era muito próxima da Igreja Católica, a nova contagem considerou o “ano 1” como o ano de nascimento de Jesus Cristo.
Qual a relação e influência desse fato com o momento atual?
A COP-28, realizada em 2023, permanece como um dos marcos importantes da discussão global sobre mudanças climáticas, transição energética e descarbonização. Naquele encontro, a meta de reduzir emissões e avançar para uma economia de baixo carbono ganhou ainda mais força, especialmente diante da necessidade de acelerar respostas aos gases de efeito estufa até 2050.
Em 2026, a questão deixou de ser apenas o compromisso firmado em conferências internacionais. O desafio está em transformar metas em soluções técnica, econômica, ambiental e operacionalmente viáveis para substituir, em escala global, fontes geradoras de CO₂, como petróleo, carvão e gás natural, sem interromper a mobilidade, a indústria, os transportes e a logística.
É a chamada descarbonização.
Ressalto aqui que também se deve incluir o gás metano, não como geração de energia, mas como subproduto da digestão do rebanho bovino mundial. Devem ainda ser considerados os inúmeros incêndios que ocorrem em todo o planeta. A Amazônia, muitas vezes, acaba pagando o “pato” sozinha por “dar ibope” e ampliar o poder de ONGs que avançam nas explorações da biodiversidade da floresta.
Como decorrência da descarbonização, em poucos anos surgiram inúmeros fundos de investimento da Europa e dos Estados Unidos voltados à produção de hidrogênio verde, especialmente no Nordeste brasileiro, da Bahia ao Ceará.
Por isso, tomo a humilde liberdade de acrescentar um “E” e transformar ESG em “2ESG”. O econômico está no comando, e não necessariamente o compromisso com o futuro do nosso planeta. Basta observar a leitura dos relatórios e compromissos que vêm sendo publicados desde a COP-28.
Aliás, em todas as pesquisas que faço, ainda não encontrei nenhum estudo científico mostrando que o hidrogênio como combustível tenha produção viável técnica e economicamente em escala global.
Conforme já postei no Conselho ESG, em matéria do Valor, para produzir 1 kg de hidrogênio verde são necessários cerca de 58 kWh, o equivalente a aproximadamente um terço do consumo médio mensal de uma residência. O colega Eduardo Athayde também postou informação de que o fundo Mubadala, de Abu Dhabi, investiria bilhões na Bahia para produzir “diesel verde” a partir de uma biorrefinaria destinada ao processamento do fruto da macaúba, com plantação ocupando milhares de hectares.
Aí vem o “X” da questão.
No estudo da matemática, especialmente na escola de Engenharia, todas as equações, hoje algoritmos, tinham a incógnita identificada como “X”. Poderia ser qualquer letra, mas o “X” sempre foi, e ainda é, o desconhecido a ser desvendado.
Na minha reflexão, o “X” é o conjunto de soluções ainda desconhecidas para substituição de combustíveis geradores de gases de efeito estufa, com comprovação técnica, econômica e ambientalmente correta, para que até 2050, de novo uma data “imaginária”, o planeta Terra avance em direção ao equilíbrio da atmosfera limpa do final do século XIX.
Sim, porque foi nessa fase que o petróleo foi descoberto e passou a dar origem a tudo que conhecemos como seus derivados. A partir daí, começou a “sujar” o ar que respiramos, as águas de rios e oceanos, além de elevar o risco de aumento da temperatura do globo terrestre.
Curioso observar que a inteligência do ser humano levou milhões de anos para sair da condição de homo sapiens e chegar ao nível atual, em que cada ano parece equivaler a milhões de anos em termos de evolução. Essa é apenas uma abstração, sem nexo científico fundamentado pelo autor.
Assim, ao reler análises, relatórios e decisões que vieram desde a COP-28, a pergunta continua atual: o que, de fato, essas conferências têm conseguido transformar em contribuição concreta?
Até mesmo Simon Stiell, secretário executivo da Convenção do Clima, colocou dúvida ao afirmar, em matéria do Valor de 07/12, que boas intenções não vão reduzir pela metade as emissões desta década. Só boas intenções não bastam.
E onde entra a borboleta nesse contexto?
Bem, as borboletas não seguem um “plano de voo” tal qual um pássaro. Além disso, por serem muito mais leves e terem asas frágeis, não conseguem vencer a força dos ventos, mesmo que seja apenas uma brisa.
Isso gera uma trajetória aleatória na análise “origem e destino”. E essa imagem me fez recordar o Movimento Browniano, em que partículas se movem de forma aleatória.
Faço essa analogia no contexto da preservação do planeta Terra porque pouco tem sido resolvido, de forma concreta, pelo conjunto de medidas discutidas nas conferências anteriores. Especialmente porque governos mudam, políticas mudam, interesses econômicos mudam, e muitas medidas inesperadas prejudicam estratégias, destroem planos e geram fortes impactos nas empresas.
Se a descarbonização é tida como solução, ainda se viu pouco resultado prático desde o Acordo de Paris, assinado em 2015.
No bojo da aleatoriedade de um tema de máxima complexidade, vejo como extremamente difícil, ou até mesmo impossível, atingir a meta de limitar a elevação da temperatura do planeta a 1,5 ºC até 2050.
E isso não basta.
Assim, complemento essa análise colocando para reflexão um kit de sobrevivência. Sei que muitos acharão utopia. Mas será que algumas metas climáticas também não são?
- Todas as nações poderiam encerrar a “corrida espacial” por 10 anos e aplicar os recursos alocados em uma Fundação da Ciência Carbono Neutro.
- Carbono neutro não é carbono zero. Em até 10 anos, desenvolver tecnologia, do tipo catalisador, para neutralizar, e não apenas eliminar, a emissão de CO₂ nos meios de transporte.
- Criar a matriz energética essencial para manter a humanidade em movimento. Esse talvez seja o maior desafio, pois não significa eliminar completamente o petróleo, mas reduzir sua dependência.
- Definir 10 anos como meta para que automóveis usem motorização com hidrogênio verde, elétrico puro ou híbrido etanol-elétrico, em substituição à gasolina.
- Definir 15 anos como meta para que caminhões e ônibus usem combustíveis “carbono neutro” em substituição ao diesel.
- Definir 15 anos como meta para que o transporte marítimo e fluvial use combustível “carbono neutro” em substituição ao bunker.
- Definir 15 anos como meta para que a indústria aeronáutica e as companhias aéreas encontrem soluções técnicas para substituir o QAV ou gerar soluções físico-químicas para neutralizar a emissão de gases de efeito estufa.
- Definir prazo de 10 anos para que as indústrias, em nível global, substituam a geração de energia de origem fóssil, especialmente petróleo e carvão mineral.
- Como país líder na produção de proteína vegetal, especialmente soja e milho, e proteína animal, o Brasil deve manter a política de agricultura regenerativa e pecuária sustentável, sem avançar por novas áreas de desmatamento.
- A COP30, realizada em Belém do Pará em 2025, reforçou ainda mais a centralidade da Amazônia nessa discussão. Mas é preciso lembrar: a preservação da Amazônia brasileira é parte integrante da soberania nacional.
O Governo da Nação deve enfrentar com transparência a atuação de organizações estrangeiras que, há décadas, exploram direta ou indiretamente a biodiversidade do bioma animal e vegetal. Ao mesmo tempo, deve tornar transparente o Fundo Amazônia, os recursos doados pelos países e suas finalidades.
De todas as atividades empresariais e pessoais, a logística, os transportes e a mobilidade urbana são as que mais podem contribuir para salvar o planeta onde vivemos.
Isso porque a logística está nos fluxos, nas rotas, nos modais, nos combustíveis, nas decisões de localização, nas redes de distribuição, na ocupação das cidades, na eficiência dos transportes e na forma como produtos e pessoas se movimentam.
2050 pode parecer distante.
Mas, em logística, o futuro começa muito antes.